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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Aos educadores...

Aos educadores...


Um dos elos mais fortes na corrente estrutural de uma nação é a educação e ela surge como lugar-comum nos palanques políticos de nosso país. Rotineiramente, todos usam em seus discursos promessas de priorizarem-na em seus mandatos e essas propostas, por assim dizer, "eleitoreiras", têm garantido a eleição de muitos e a expectativa de mudanças efetivas sempre proteladas para um futuro em devir.
Ela, a educação, a bem da verdade, é reconhecida, nos mais recônditos espaços do mundo, como um dos principais pilares na formação e transformação do indivíduo. Em nossa sociedade, ocidental e escolarizada, é dínamo em prol da justiça, da oportunidade de condições mínimas para que alguém possa habilitar-se numa cidadania democrática.
Uma boa educação garante maior e melhor participação, propicia liberdade, estimula a autenticidade de mentes independentes e conscientes dos seus direitos e deveres.
 O Brasil, talvez por ser um país novo, somente no final do século passado, entendeu já passar da hora de investir, de forma mais contundente, em educação pretendendo com isso melhorar seus índices de desenvolvimento e sua imagem de país comprometido com algum tipo de equidade, mesmo que em pequenas proporções. Em outras palavras, buscou adequar-se aos ditames neoliberais e aos fluxos internacionais reclamantes desse tipo de assistência e tutela.
Um dos primeiros passos a ser destacado foi o aumento do percentual do PIB brasileiro destinado à área e, a partir daí, no final da década de 90, a criação do FUNDEF (Lei 9.424/96), com vistas a desenvolver políticas públicas de atenção especial ao ensino fundamental e valorização do magistério. Em 2007, o nível de atendimento coberto por esse fundo, de natureza contábil, passou a englobar a chamada Educação Básica e seus recursos foram centrados numa “repaginação” do ensino infantil, fundamental e médio. Eis então a origem do FUNDEB (Lei 11.494/07): mecanismo responsável pela dotação de recursos, repassados da União diretamente aos estados e aos municípios, os chamados entes federados, com fins de que melhorias fossem visualizadas, na relação de ensino-aprendizagem, entre os anos de 2007 a 2020.
Para além dos atividades "mobralescas" e das muitas campanhas de erradicação do analfabetismo brasileiro, muitos programas são criados com objetivo de viabilizar melhores práticas nas escolas do nosso país. Contudo, há de ser ressaltado, em todos eles, a importância atribuída à figura do professor: esse “sujeito” que é sempre “objeto” privilegiado em campanhas políticas, mas que na prática, experimenta, na própria pele, o desmantelamento de sua profissão, por intermédio de ações que minam a docência e desestimulam o ingresso dos jovens nesta carreira de enorme relevância social.
Em que pesem a pujança da profissão, a carência de recursos infraestruturais, a convivência diuturna com salas de aula superlotadas e com jornadas duplicadas de trabalho, a exposição à violência e o pouco reconhecimento da atividade são fatores relevantes para o abandono da docência, a ponto de o próprio MEC lançar campanhas remunerativas para que estudantes secundaristas queiram se dedicar ao ensino, porque o país já se recente de profissionais nesta área e, tardiamente, procura saídas, mergulhado que esteve/está nos paliativos pré-eleitorais.
Falta por fim, analisar que, muito além da realidade de trabalho de outras carreiras, o ingresso no magistério, principalmente no âmbito estatal, não garante a este profissional o mínimo de “sossego” que muito servidores públicos de outras esferas usufruem. Note-se, por exemplo, a significativa concorrência e a alta valorização social e econômica que é dada aos engenheiros, aos médicos, aos membros do judiciário e militares, servidores públicos, muitas vezes, num nível de escolarização bem inferior aquele alcançado pelo professor, mas que são bem melhor remunerados.
Enquanto uma minoria de categorias trabalhistas do país canaliza suas ações para manutenção de alguns privilégios, a classe docente luta por condições humanas de trabalho, pela implementação e/ou correção de um piso salarial medíocre, porque destoante das promessas eleitoreiras alardeantes de “mundos e fundos” para o professor. Como atrair atenção para a instigante missão de compartilhar saberes? Será que a lógica perversa não é justamente afastar os "rebeldes" e "indomáveis" das cátedras escolares?
Somente em 2009, como ilustração, estabeleceu-se, na forma da lei, a emergência de um patamar salarial para esta classe. Naquela época, através de um das mais curtas legislações do nosso referencial jurídico, oito artigos sintetizaram tanto a remuneração mínima permitida, como definiram a jornada de trabalho semanal deste profissional. A 11.738/08, como ficou conhecida, garantiu naquele ano que nenhum professor de nível médio poderia ter vencimento inferior a R$ 950,00, salvaguardando aos estados e municípios o direito de se enquadrarem a esta demanda até 2010, inclusive garantindo ajuda às unidades executoras em dificuldade manifesta na concretização do supracitado dispositivo legal.
Do mesmo modo, o Plano Nacional de Educação, projeto de lei ainda tramitando nas burocráticas "engrenagens do poder" e que é fruto do Termo de Compromisso  assinado pelos estados e municípios em "pactos enferrujados" de avanços com o MEC,  prevê na Meta 17 a valorização dos trabalhadores do magistério, a partir da equiparação salarial com outras áreas, e preconiza a evolução dos vencimentos como estratégia sine qua non  para que tal objetivo seja enfim alcançado.
No contexto de nossa cidade, em que professores foram, em outras épocas, manchetes dos principais telejornais do país por lecionarem em troca de não mais que R$1,00, a implementação, aos trancos e barrancos, de um Plano de Cargos Carreira e Remuneração do Magistério (Lei 781/2009), que diga-se de passagem já merece uma ampla revisão, à sua época, surgiu com um pequeno degrau de uma longa escada que precisamos urgentemente subir, sob pena de cairmos, a curto prazo, numa realidade desestimulante e jurássica, cujo reflexo surtirá na educação de cada filho e filha de Aroeiras. Não que os professores só trabalhem por dinheiro, porque esta equação além de idiota é facilmente desmontada, haja vista muitos dos "doutores" de hoje serem “criaturas” daqueles mesmos "criadores" remunerados por “um real” ... Todavia, bem sabemos que o valor do trabalho de uma classe tão fundamental não pode ser medido, e se esta não recebe ao menos a motivação e a segurança financeira devidas ao exercício do seu ofício, este será irremediavelmente prejudicado. Lembremos, pois, que a ignorância é sempre mais dispendiosa do que a educação. Esta conta, portanto, com ônus bem mais difícil de ser quitado...
Assim, neste 15 de outubro, dia em que oficialmente celebramos o dia do Mestre, ousamos pensar nos avanços dessa classe no contexto da rede municipal de Aroeiras, vislumbrando dessa forma, um retrospecto que nos mostra certos avanços em alguns pontos, ao mesmo tempo em que nos projeta para um futuro, quiçá, mais justo, mais digno, mais promissor... E se hoje não faz sentido uma grande comemoração, podemos sim observar que, fruto de muita luta e muita resistência, contabilizamos alguns êxitos, principalmente na quantidade de aroeirenses que conseguem alcançar o terceiro grau, no empenho diligente de nossos colegas, incessantes na tarefa de continuar a sua formação em cursos de pós-graduação após exaustivas jornadas de trabalho, nos resultados mais satisfatórios do IDEB e das avaliações nacionais, vergonhosos até 2009 e, a partir dali, mais adequados à competência e à responsabilidade da classe docente de nossa região, cujo destaque nas redondezas, e até em estados vizinhos, justifica a Aroeiras o título de “Terra dos educadores”. Ou seja, em muitos aspectos, grande parte dos educadores dessas paragens tem, de certa forma, cumprido os ditames de algumas das 20 metas estabelecidas no PNE e, portanto, merecem ser laureados com todo carinho e reconhecimento necessários, haja vista sua ratificada responsabilidade... 
Além dessas conquistas enobrecedoras a todos os nossos queridos professores – os de hoje, fruto das sementes dos de ontem – outras tantas podem ser aqui relembradas a título de exemplo:
Em 2009, a legislação previa o pagamento de dois terços dos R$ 950,00 para uma jornada de 40 horas, ou seja, prescrevia um salário de 633,00 reais ao docente de nível médio. Em Aroeiras, o professor desse nível recebia como vencimento R$ 800,00.
Já em 2010, com a obrigatoriedade do pagamento integral previsto na Lei, o próprio Governo Federal reajustou o valor de R$ 950,00 para R$ 1.024,67, contabilizando um acréscimo de 8%. Na tabela de reajuste anual do nosso município, o valor repassado ao docente de 40 h foi de R$ 1.176,00 o que demonstra um percentual de quase 15% em relação ao que determinava a lei.
Em 2011, o Gov. Federal somou mais 15,8% ao salário mínimo do profissional do magistério, passando o valor dessa remuneração para R$ 1.187. Em nossa cidade, o professor em jornada de 40 h passou a receber R$ 1.352,40, novamente mais de 14% acima do montante mínimo exigido.
Em 2012, o reajuste foi mais longe, o professor de nível médio, na forma da lei, não poderia receber menos que R$ 1.451, um acréscimo de 22,5%.  O município de Aroeiras, por sua vez, reajustou o valor inicial para R$ 1.622,88 ficando, pois, aproximadamente 14% acima do valor mínimo exigido.
Isso não quer dizer que os nossos gestores tenham sido “bonzinhos” ou que tenham sido "contagiados" pela síndrome da “generosidade descontroladamente adquirida". Penso que desconfiavam da diferença entre PISO e TETO e, talvez porque olhassem para o seu próprio salário e visualizassem a injustiça explícita de uma forma estonteante, optassem em ir um “pouquinho” além para não se mancharem com o estigma de desvalorizar tal categoria.
Da mesma forma, talvez porque muitos governantes levam ao pé da letra o codinome da Lei 11.738, conhecida popularmente como a "Lei do PISO", tenham assim, se limitado a agir como se  "PISASSEM" por sobre os professores, pautando suas ações numa violência às vezes explícita, às vezes silenciosa, que tanto oprime como desmerece labor tão importante.
Esses episódios se proliferam nas redes sociais e na imprensa de um modo geral, juntamente com a ojeriza da sociedade, agora perplexa, e nada passiva diante de tamanho ultraje. A que ponto estamos chegando?
Por fim, sou daquelas que acredito que nada disso poderá enfraquecer a nossa luta diária, seja nas salas de aula ou nos programas enviados à toque de caixa pelo MEC, lecionando dia e noite ou estudando noite e dia para melhor lecionar... Nada disso poderá silenciar o poder construído com o suor do nosso rosto e com o afinco de quem ama o que faz e, por isso o faz dando de si o seu melhor !!!
 Ousamos sonhar com a confiança no saber, com a desconfiança nas falsas promessas, com a alegria da sala de aula, espaço do mais autêntico intercâmbio, com os frutos das boas-novas vibrantes e salutares, com a liberdade de uma consciência sã, aberta e por isso esperta, VIGILANTE!!!
Parabéns professores! Bravos guerreiros! Caros colegas, grandes amigos!!!
Não desistam da educação e acreditem no seu poder de criar mentes sadias, mais benignas, menos estáticas, mais humanas, mais sujeitos, menos objetos!
Felicitações sinceras pelo nosso dia!!!

Professora Patrícia Germano
Dia 15.10.13
às 00h

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Poesia do dia!!

Como as palavras falam
A segunda...
A terça...
A quarta...
A quinta...
A sexta...
Dias de trabalho...
Tão femininos...

O sábado.
Inversão final do ciclo.
Dia do ócio...
Dos saturnais folguedos,
Dos permitidos prazeres.

O domingo, dia do Senhor...
É o primeiro a se multiplicar em ordens
Abnegadamente obedecidas
pela próxima semana:
Ela, Cinco x feminina...

O trabalho é masculino ?
O feriado?  Certa estou que é.
Restam-nos “as férias”,
Alentadora promessa,
Consolo e sinal
De um erótico encontro
Entre  A FOLGA E O DESCANSO!!!

Patrícia Germano
02.08.2013
Às 11h29


quarta-feira, 15 de maio de 2013

FRONTEIRAS, TRAVESSIAS E PASSAGENS... O ENTRE-LUGAR DO MARAVILHOSO EM “O SUMIÇO DA SANTA” DE JORGE AMADO



Patrícia Gomes Germano[1]

RESUMO:

“Lo maravilloso comienza a serlo de manera inequívoca cuando surge de uma inesperada alteración dela realidade (el milagro)[...]”. Assim alerta Carpentier (1989) quando conceitualiza o real maravilhoso. Para o autor, no contexto literário, o maravilhoso acontece quando uma alteração da realidade, entrevista pela obra, projeta-se numa “consciência de fé”, numa adesão particular daqueles que experimentam esse “desestabilizar” cosmogônico, não somente no aspecto literário, mas, sobretudo, em vivências inusitadas experimentadas por determinado grupo. Logo, cabe à literatura maravilhosa transformar-se numa espécie de “refratário” de experimentações vivificadas e não contraditórias em dada vivência. É notório no universo literário amadiano a constante presença de cosmogonias mítico-sacrais em convivência, sejam as sacralidades afro-brasileiras, com especial relevo para os rituais de matriz iorubá, seja a constante menção ao catolicismo e a seus dogmas e, principalmente, a hibridação orquestrada entre os dois códigos sacrais. Aqui o nosso olhar analisará a representação do maravilhoso, o reencenar dos mitos e das travessias, a quebra de fronteiras entre a realidade consolidada e o insólito sobrenatural alavancados na diegese de O sumiço da santa: uma história de feitiçaria (1988), cuja novidade, ao que parece, é por em cena as ações maravilhosas ocorridas num período quaresmal na cidade de Salvador, mescladas ao reviver mítico queto-nagô. Tais sacralidades aparecem imbricadas e compartilhadas entre personagens empenhados em naturalizar o insólito. Como esteio teórico, faremos uso dos estudos de Carpentier (1989), Chiampi(1980) e Reis (2005),Prandi (2005), Capone (2004) e Bastide (2000), os três últimos para solidificar as incursões na mitologia de matriz afro-iorubá.

Palavras-chave: Jorge Amado, Real Maravilhoso, Sacralidade, Literatura.

O real maravilhoso transcultural no texto amadiano

Comumente o trabalho de Amado é compreendido pela crítica como detentor de dois momentos principais: o primeiro concentrado numa demarcação político-filosófica dos ideais pertinentes ao Partido Comunista e a “propagandear”, através do discurso literário, os fundamentos de um Estado-Nação bem enquadrado dos ditames eletivos “apropriados” a essa estrutura; o segundo, que tem Gabriela: cravo e canela como marco inicial, inaugura uma nova fase que deixa o tom panfletário, por vezes proselitista e doutrinário das obras anteriores, com ênfase na divulgação dos paradigmas marxista, para adotar uma expressão textual compromissada com um “mínimo de literatura” para um “máximo de realidade” (AMADO, 2001a) [2]. Assim, o autor amplia seus mecanismos estéticos graças à liberdade discursiva enfatizada quando o rigor do romance de tese é substituído por textos em que tanto a forma como o conteúdo apontam para o trânsito entre a prosa documental, naturalista e didática e os acordes do lirismo poético, do subjetivismo e do ressurgimento de linhas temáticas antes relegadas ao esquecimento
A crítica não entra em consenso quando a natureza dessa mudança. Alguns a veem como radical, outros, como mera continuidade. Para Bosi (1970), são crônicas “amaneiradas” e costumes provincianos dissolvidos no pitoresco, no apimentado do regional. Para Albuquerque (1999), Jorge Amado continua preso às concepções de etnicidade, revalorizando à raça, do ponto de vista cultural e psicológico, na medida em que defende a mestiçagem como um ponto de partida para personalidades sincréticas sem se ater ao nível psicológico das personagens.
Por vieses díspares, estudiosos como Manzatto (1994) e Swarnakar (1998) entendem que não há descontinuidades ou pieguice nesse segundo momento. Manzatto salienta que “não existe ruptura entre as duas fases da literatura de Amado, entre o narrador social da primeira fase e o escritor sorridente da segunda. Mesmo porque, tanto em uma como em outra, o que transparece de sua literatura é o engajamento pela liberdade” (p. 98) uma liberdade que nesse segundo momento esforça-se por desconsiderar o dualismo clássico assumido nos textos anteriores e passa a celebrar a riqueza do encontro, da hibridação, da lógica carnavalizada assumida por personagens decididos a viver no entre-lugar, na fronteira demonstrando, sobretudo, a fragilidade de toda ordem binária. Na palavra de Swarnakar, a obra “does not appear to be a dividing line in his career.” (p.171) e o Amado continua apresentando o que ela chama “social consciousness”.  
Para Da Matta (1997, p.128),
Em termos literários, a originalidade desta fase de Jorge Amado é que, ao sério, ele responde com o carnavalesco; ao normativo e ao partidário ele contrapõe o pessoal, o singular e o milagroso; ao materialismo formalista e retórico, ele ataca com a informalidade e com a religiosidade; a vida definida como fórmula econômica, ele apresenta o mundo como uma complicada teia de relações pessoais que sustenta a esperança nas boas amizades e se celebra a relação pela relação.

Assim, podemos nos aproximar do romance em estudo como um dos representantes máximo dessa vertente amadiana em cujo cerne está balizada a noção dos vários hibridismos a que estão sujeitos à dinâmica das relações sociais, principalmente àquelas que tratam da demarcação entre o natural e o sobrenatural.
Nessa perspectiva, O Sumiço da Santa: uma história de feitiçaria protagoniza, num olhar primevo, ações que problematizam as hibridações próprias das fronteiras, em suas amplas possibilidades simbólicas, contexto que desnudam a precariedade da divisão, do sedentarismo e celebram a riqueza das possibilidades. Para Pesavento (2001, p. 8),
[...] as fronteiras não são apenas marcos divisórios construídos, que representam limites e que estabelecem divisões. Elas também induzem a pensar na passagem, na comunicação, no diálogo e no intercâmbio. Figurando um trânsito não apenas de lugar, mas também de situação ou época, esta dimensão da fronteira aponta para a instigante reflexão de que, pelo contato e permeabilidade, a fronteira possibilita o surgimento de algo novo, híbrido, diferente, mestiço, de um terceiro que se insinua nesta situação de passagem.

Nessa perspectiva, as ações cambiantes de O Sumiço da Santa criam uma ideia do novo como ato insurgente de “tradução cultural” e articulam a criatividade inerente à fronteira, não mais geografia de separação, mas território da imprevisibilidade criativa que desorganiza velhas ordens num processo de contínuo devir.
Breve notícia da obra
A história inicia-se com o embarque e desembarque da imagem de Santa Bárbara, vinda da cidade de Santo Amaro da Purificação a fim de abrilhantar uma exposição de arte sacra promovida pelo clero de Salvador, na pessoa de Dom Maximiniano Von Grudem. Tal imagem constitui-se uma raridade justamente por fugir à regra das estátuas comuns e não possuir os símbolos e elementos tipicamente atribuídos à Santa Bárbara: o cálice, a palma e a torre. Do contrário, traz “às mãos um feixe de raios”, é “famosa pela beleza secular e por milagreira” (p.4). Em companhia à peça de arte sacra, viajam Pe. Abelardo Galvão, humilde vigário da cidade de Piaçava, personagem importante no desenrolar das ações e irmã Eunice, freira da Clausura das Arrependidas.
Quando a imagem chega ao cais do porto, desce da embarcação, transmuta-se numa belíssima negra, atira de lado o manto e desaparece na Rampa do Mercado, “andando para os lados do elevador Lacerda” e, “antes que as luzes se acendessem nos postes, Yansã sumiu no meio do povo” (p. 11), visitando um terreiro, solucionando problemas, enfim anunciando o real motivo de sua vinda à Bahia: “trazia um propósito e uma decisão: libertar Manela do cativeiro e mostrar a Adalgisa com quantos paus se faz uma cangalha” (p.29-30).
Importante atentar que, no enredo, não existe referência precisa das datas do acontecimento, apenas os dias são citados, mas, por uma analogia à Sexta-feira da Paixão – data importante do calendário cristã – realizada no décimo sexto capítulo A longa jornada da sexta-feira das paixões (p. 311) e pela associação do sofrimento de Dom Maximiniano à Via crucis, presume-se que as ações acontecem entre a quarta-feira e a sexta-feira da quaresma.
A par dessa informação, vale observar que no ritual litúrgico dos terreiros iorubás, durante a quaresma, inexiste qualquer tipo de atividade, fato que conduz a narrativa a um caráter transgressor, porque os seres divinos da mitologia nagô realizam proezas durante a chamada “Semana Santa” dos católicos.
Por essa altura, aparecem na expressão diegética um núcleo de personagens envolvidos na montagem da Exposição de Arte Religiosa. À frente deste badalado evento, Dom Maximiniano von Gruden, “museólogo ilustre”, “conceituado historiador de arte” (p.15),  defensor de tese sobre a dita imagem de Santa Bárbara e atribuir, como seu legítimo autor, o Mestre Aleijadinho.
Na expectativa da chegada de tão rara peça, Dom Maximiniano atende a repórteres e enviados especiais de Portugal com relevância ao poeta e jornalista Fernando de Assis Pacheco incumbido de “cobrir”, jornalisticamente, o evento.
            Nova quebra de linearidade apresenta-se na narrativa. Dessa vez, em continuidade ao momento inicial, o capítulo A Taca de couro (p. 37) recorre a um movimento temporal retrospectivo destinado a relatar eventos anteriores ao presente da ação e, nesse caso, precedentes ao tempo do seu início. Nele são apresentados Manela, órfão de pai e mãe, criada pela tia Adalgisa Perez y Perez e por Danilo, ex-jogador de futebol, esposo dedicado aos caprichos da jovem senhora apelidada de Dadá.
Os capítulos Noivado e casamento (p.107) e A(s) noite(s) de núpcias (p.175) ainda fazem uso de analepses para apresentar as atitudes de Adalgisa durante o noivado e no decorrer das bodas. Em ambos, o tom humorístico se sobressai, desarticulando a seriedade e caricaturizando o comportamento pequeno-burguês comum na época em que o texto é ambientado.
Na composição textual, Adalgisa é descrita como uma chapeleira com ares de grã-fina, criada pela madrinha, Dona Esperanza, para ser uma senhora de respeito e distinção. Dona de um corpo invejável, de uma sexualidade reprimida por tabus e códigos de honra, não consegue ter filhos e nem satisfazer sexualmente o esposo Danilo. Mesmo assim, esmera-se no cuidado da casa e na educação da enteada Manela.
Empenhada em criar a sobrinha com pulso firme, “Adalgisa pusera-lhe cabresto, ditara rígidos horários, não lhe permitia trocar pernas pelas ruas”, “terreiros de santos, nem falar: Adalgisa tinha horror a candomblé. Horror sagrado” (p.50). De todas as proibições, o namoro com o jovem taxista Miro, mulato, pobretão, chegado a festas de macumbas, consistia no delito máximo e a pena, uma surra com uma “taca de couro” presente do padre confessor: Antônio Hernandez.
Decidida a fugir de casa com o namorado Miro, Manela não concretiza seus planos porque a tia descobre o intento e, com a ajuda do padre-confessor, consegue interná-la na clausura das “Arrependidas”.
Romance narrado em blocos onde a técnica do fragmento é amplamente usada, Jorge Amado justapõe ações que se unem através de um eixo comum: o envolvimento com a imagem/orixá/santa católica.
Posterior a essa digressão, o narrador realiza outra incursão na vida de Dom. Maximiniano von Gruden a fim de dar continuidade ao sofrimento vivido pela personagem, graças ao sumiço de tão valiosa imagem. É nesse núcleo diegético que duras críticas ao roubo de obras de arte são conferidas, bem como é construída uma caricatura dos dirigentes clericais, favorecidos por políticos corruptos, sempre alheios ao bem do povo.
No capítulo A Via Crucis (p.79), essa tensão é narrada ao passo que novos personagens surgem na composição: o Bispo Dom Rudolph, o coronel e delegado de polícia Raúl. O capítulo é entrecortado por outros dois de natureza digressiva: um que relata os acontecimentos do noivado de Adalgisa e Danilo e outro destinado aos passeios de Iansã entre ateliês famosos e humildes tendas de artesãos.
A continuidade às agruras de Dom Maximiniano é retomada no capítulo Os telefonemas (p.125) instante em que reaparece Pe. Abelardo Galvão visto, pelas autoridades eclesiais, como principal suspeito do roubo da imagem desaparecida.
Desse ponto, as ações voltam-se para caraterizar Pe. Galvão e Patrícia, jovem moça de audaciosos ideais, empenhada, juntamente com o vigário, na luta em favor dos moradores sem-terra da localidade de Piaçava e na denúncia dos crimes cometidos pelos latifundiários da região. Além de militante, é filha de Iansã a quem realiza um ebó[1] com objetivo de conquistar o padre. Atriz, viera a Salvador para abrilhantar documentário francês, gravado na cidade, com abordagem sobre os costumes e singularidades locais.
 Com esse núcleo, Jorge Amado pondera a concepção negativa do clero, trabalhada no núcleo dos dirigentes, e apresenta um padre solidário, participativo, engajado na luta em defesa dos “oprimidos”, simpatizante das teorias religiosas latino-americanas da segunda metade do século XX.
 Interligados aos dois personagens, um grupo de socialytes, mulheres de políticos influentes, de juízes e fazendeiros, dignas senhoras na aparência, mas de essência libertina e dissimulada. Dentre elas, Diana D`Ávila, esposa do juiz de menores, flagrada numa cama de motel ao lado de seminarista Elói.
Após essa longa caracterização das personagens, o narrador relata as ações ocorridas durante os dias de quinta e sexta-feira, lembrando que toda narrativa se formula em torno da chegada de Santa Bárbara/Iansã a cidade, na quarta-feira.
A princípio, o narrador descreve as peripécias de Adalgisa até conseguir autorização para enclausurar Manela no Convento das Arrependidas, a raiva que essa atitude causou em seu marido Danilo e o batalha travada por familiares e vizinhos na tentativa de livrar a pobre moça da madrasta insensível. Pela intervenção de Santa Bárbara, que é reconhecida por irmã Eunice, a jovem reclusa finalmente sai da clausura e, em frente ao convento, Manela torna-se cavalo de Iansã, recebe o eiru e suspende o namorado Miro como ogã de Oyá.
Revoltada com a notícia de que a sobrinha fugira do castigo, que recebera santo de macumba e que se encontrava reclusa num terreiro, Adalgisa, junto ao Pe. Antônio Hernandez, procura conseguir nova autorização do juizado para retirá-la do Axé[2]. Durante o trajeto, encontra-se com uma negra e um pau-de-arara. Misteriosamente é possuída por Iansã auxiliada por Exu, Ogum e Oxóssi.
Ainda no capítulo final, o autor esclarece o ocorrido com Pe. Abelardo Galvão e com Patrícia. Ele se livra do assassinato por encomenda, graças à intervenção de Exu fantasiado de pau-de-arara e ela consegue enfim o amor do padre, em vista de um ebó  destinado à Iansã.
Já se encaminhando para o desenlace, após cumprir todos os seus compromissos mais urgentes, Santa Bárbara/Iansã aparece no Museu de Arte a tempo de salvar Dom Maximiniano do fracasso que lhe aguardava, coroando com louros e honrarias a tão divulgada exposição.
Interessante notar que, nesse aspecto, a narrativa apresenta-se como um ciclo, já que se inicia com a transformação da imagem de Santa Bárbara em mulata e em orixá para, no fim das quarenta e oito horas, voltar a ser imagem, ícone do catolicismo.



[1] Oferenda ou sacrifício animal, de sangue: mengua, a um orixá. Cf. Guilhermino (2004).
[2] Palavra de múltiplos significados, entre eles, força vital, princípio da vida. Dá-se o nome de Axé também ao  terreiro e espaço sagrado onde se realizam o culto aos orixás, por entender que nele se concentram as energias das divindades.  No Brasil, foi associada à saudação que, ao mesmo tempo, é invocativa do divino. Cf. Pessoa de Castro (2001), Cf . Prandi (2005).


REFERÊNCIAS:
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RAMA, Angel. La transculturación em la narrativa latinoamericana. In: la novela latinoamericana 1920-1980 – Bogotá: Instituto Colombiano de Cultura, 1982
REIS, Lívia Maria de Freitas. Transculturação e Transculturação Narrativa.  In: FIGUEIREDO, Eurídice (org.). Conceitos de literatura e cultura. Juiz de Fora: UFJF, 2005, p. 465 – 488.
SANTIAGO, Silviano, O entre-lugar do discurso latino-americano. São Paulo: Rocco, 2000.SWARNAKAR, Sudha. “The Fallen Woman in English and Brazilian Novels: A Comparative Analysis of D. H. Lawrence and Jorge Amado” University of Warwick, 1998. Tese de Ph. D. não publicada.



[1] Doutoranda PPGLI – UEPB – CAPES/CNPQ, com pesquisa na área de tradução intersemiótica dos textos amadianos, é  professora da Rede Pública Estadual da Paraíba, Mestre e Especialista pela UEPB.
[2] Frase de abertura do romance Cacau (1933) exaustivamente usada pela crítica para condenar a “pouca” expressividade estética do autor.
[3] Neste estudo, não se entra em detalhes sobre a proliferação de termos que tentam dar conta da inclusão de aspectos míticos nas artes em geral. Dessa forma, elenca-se aqui apenas o conceito de realismo maravilhoso na perspectiva de Alejo Carpentier estudado por Chiampi (1980), por entender que ele melhor responde as propostas narrativas expressas no romance em análise.
[4]  Ao iniciar o romance com a imagem de uma travessia e de um desembarque, Jorge Amado retoma um argumento já desenvolvido em outras obras, como por exemplo, O país do carnaval (1931) e Terras do sem fim (1943). O uso de embarcações e a metáfora da viagem ainda estão presentes em grande parte de seus textos, como Gabriela, cravo e canela (1958), Tieta do Agreste (1967), A morte e a morte de Quincas Berro d’água, (2001).

[5] O termo Ebômin ou Ebome designa a filha-de-santo com sete anos de iniciação e que tenha se submetido às obrigações rituais de costume. É uma espécie de conselheira dos recém-iniciados. Cf. Pessoa de Castro (2001).

terça-feira, 16 de abril de 2013

O GROTESCO DA SECA

A seca é uma grande boca
Que devora as esperanças do mundo.
A seca é um ventre disforme
Que deglute, em suas insaciáveis entranhas,
Homens despedaçados...


Com sua desmesurada fome,
Alimenta-se da força, do trabalho e dos sonhos.
E deixa o mundo um prato vazio...
E deixa os lagos, bacias rasas de findas águas,
Os rios, ressequidas veias de sugado sangue,
Os sobreviventes, multidão cambaleante
De sedentos Pantagruéis...


De suas entranhas férvidas,
A Terra, quando em "regras" de seca,
Sua todo o salgado do mar
Aliviando-se de seus noturnos e caudalosos calores.


Os sobreviventes, gargantas agigantadas,
Rostos boquiabertos;
Definham e deslizam, à espera
de lágrimas fecundas
Derribadas de um céu, virilmente semeador.
                                                                                                 
                                                   Patrícia Germano


quarta-feira, 10 de abril de 2013

Entrevista - 100 Anos de Jorge Amado

                     
                                Entrevista concedida ao Programa "Meio Dia Itararé", por ocasião do Colóquio Internacional - Jorge Internacionalmente Amado - promovido pela ABRAEC - UEPB - PPGLI em novembro de 2012.

Capital Inicial - Autoridades


                              Letra muito interessante!!!