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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Há quem interessa o silêncio?
O silêncio, em seu silvo sedentário,
O consenso, em sua massa estática,
Interessa ao medo...
O medo, em sua cara pavorosa,
Interessa ao hábito...
O hábito, em seu gesto de rotina,
Interessa ao monólogo...
O monólogo, em sua aridez contrita,
Interessa ao comodismo...
O comodismo, em seu conforto egoísta,
Interessa à apatia...
A apatia, em seu patético desânimo,
Interessa à indiferença...
A indiferença, em sua dormente frieza,
Interessa à covardia...
A covardia, em sua urgente fraqueza,
Interessa à violência...
A violência, em sua truculenta verdade,
Interessa à violência...
A violência, em sua truculenta verdade,
Interessa à injustiça...
A injustiça, em sua monstruosa face,
Interessa ao homem...
Que a outros homens perpetra silenciar!
A Rômulo Laurentino.
Patrícia Germano - 01.11.13
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
Aos educadores...
Aos educadores...

Ela, a educação, a bem da
verdade, é reconhecida, nos mais recônditos espaços do mundo, como um dos
principais pilares na formação e transformação do indivíduo. Em nossa sociedade,
ocidental e escolarizada, é dínamo em prol da justiça, da oportunidade de
condições mínimas para que alguém possa habilitar-se numa cidadania
democrática.
Uma boa educação garante maior
e melhor participação, propicia liberdade, estimula a autenticidade de mentes
independentes e conscientes dos seus direitos e deveres.
O Brasil, talvez por ser um país novo, somente
no final do século passado, entendeu já passar da hora de investir, de
forma mais contundente, em educação pretendendo com isso melhorar seus
índices de desenvolvimento e sua imagem de país comprometido com algum tipo de
equidade, mesmo que em pequenas proporções. Em outras palavras, buscou
adequar-se aos ditames neoliberais e aos fluxos internacionais reclamantes desse
tipo de assistência e tutela.
Um dos primeiros passos a ser destacado foi o aumento do
percentual do PIB brasileiro destinado à área e, a partir daí, no final da década de
90, a criação do FUNDEF (Lei 9.424/96), com vistas a desenvolver políticas públicas de atenção
especial ao ensino fundamental e valorização do magistério. Em 2007, o nível de atendimento coberto por
esse fundo, de natureza contábil, passou a englobar a chamada Educação Básica e
seus recursos foram centrados numa “repaginação” do ensino infantil,
fundamental e médio. Eis então a origem do FUNDEB (Lei 11.494/07): mecanismo responsável pela
dotação de recursos, repassados da União diretamente aos estados e aos municípios, os chamados entes federados, com fins de que melhorias fossem
visualizadas, na relação de ensino-aprendizagem, entre os anos de 2007 a 2020.
Para além dos atividades "mobralescas" e das muitas campanhas de erradicação do analfabetismo brasileiro,
muitos programas são criados com objetivo de viabilizar melhores práticas nas
escolas do nosso país. Contudo, há de ser ressaltado, em todos eles, a
importância atribuída à figura do professor: esse “sujeito” que é sempre
“objeto” privilegiado em campanhas políticas, mas que na prática, experimenta,
na própria pele, o desmantelamento de sua profissão, por intermédio de ações
que minam a docência e desestimulam o ingresso dos jovens nesta carreira de
enorme relevância social.
Em que pesem a pujança da profissão, a carência de recursos infraestruturais, a convivência diuturna com
salas de aula superlotadas e com jornadas duplicadas de trabalho, a exposição à violência e o pouco reconhecimento da atividade são fatores relevantes para o abandono da docência, a ponto de o próprio MEC lançar
campanhas remunerativas para que estudantes secundaristas queiram se dedicar ao
ensino, porque o país já se recente de profissionais nesta área e, tardiamente,
procura saídas, mergulhado que esteve/está nos paliativos pré-eleitorais.
Falta por fim, analisar que, muito além da
realidade de trabalho de outras carreiras, o ingresso no magistério, principalmente
no âmbito estatal, não garante a este profissional o mínimo de “sossego” que
muito servidores públicos de outras esferas usufruem. Note-se, por exemplo, a
significativa concorrência e a alta valorização social e econômica que é dada
aos engenheiros, aos médicos, aos membros do judiciário e militares, servidores públicos,
muitas vezes, num nível de escolarização bem inferior aquele alcançado pelo
professor, mas que são bem melhor remunerados.
Enquanto uma minoria de
categorias trabalhistas do país canaliza suas ações para manutenção de alguns
privilégios, a classe docente luta por condições humanas de trabalho, pela
implementação e/ou correção de um piso salarial medíocre, porque destoante das
promessas eleitoreiras alardeantes de “mundos e fundos” para o professor. Como
atrair atenção para a instigante missão de compartilhar saberes? Será que a lógica perversa não é justamente afastar os "rebeldes" e "indomáveis" das cátedras escolares?
Somente em 2009, como
ilustração, estabeleceu-se, na forma da lei, a emergência de um patamar
salarial para esta classe. Naquela época, através de um das mais curtas
legislações do nosso referencial jurídico, oito artigos sintetizaram tanto a
remuneração mínima permitida, como definiram a jornada de trabalho semanal
deste profissional. A 11.738/08, como ficou conhecida, garantiu naquele ano que
nenhum professor de nível médio poderia ter vencimento inferior a R$ 950,00, salvaguardando aos estados
e municípios o direito de se enquadrarem a esta demanda até 2010, inclusive
garantindo ajuda às unidades executoras em dificuldade manifesta na
concretização do supracitado dispositivo legal.
Do mesmo modo, o Plano Nacional de Educação, projeto de lei ainda tramitando nas burocráticas "engrenagens do poder" e que é fruto do Termo de Compromisso assinado pelos estados e municípios em "pactos enferrujados" de avanços com o MEC, prevê na Meta 17 a valorização dos trabalhadores do magistério, a partir da equiparação salarial com outras áreas, e preconiza a evolução dos vencimentos como estratégia sine qua non para que tal objetivo seja enfim alcançado.
No contexto de nossa cidade, em
que professores foram, em outras épocas, manchetes dos principais telejornais
do país por lecionarem em troca de não mais que R$1,00, a implementação, aos
trancos e barrancos, de um Plano de
Cargos Carreira e Remuneração do
Magistério (Lei 781/2009), que diga-se de passagem já merece uma ampla revisão,
à sua época, surgiu com um pequeno degrau de uma longa escada que precisamos
urgentemente subir, sob pena de cairmos, a curto prazo, numa realidade
desestimulante e jurássica, cujo reflexo surtirá na educação de cada filho e
filha de Aroeiras. Não que os professores só trabalhem por dinheiro, porque
esta equação além de idiota é facilmente desmontada, haja vista muitos dos "doutores" de hoje serem
“criaturas” daqueles mesmos "criadores" remunerados por “um real” ... Todavia,
bem sabemos que o valor do trabalho de uma classe tão fundamental não pode ser
medido, e se esta não recebe ao menos a motivação e a segurança financeira devidas ao exercício do seu ofício, este será irremediavelmente prejudicado.
Lembremos, pois, que a ignorância é sempre mais dispendiosa do que a educação. Esta conta, portanto, com ônus bem mais difícil de ser quitado...
Assim, neste 15 de outubro, dia
em que oficialmente celebramos o dia do
Mestre, ousamos pensar nos avanços dessa classe no contexto da rede municipal de Aroeiras,
vislumbrando dessa forma, um retrospecto que nos mostra certos avanços em
alguns pontos, ao mesmo tempo em que nos projeta para um futuro, quiçá, mais
justo, mais digno, mais promissor... E se hoje não faz sentido uma grande
comemoração, podemos sim observar que, fruto de muita luta e muita resistência,
contabilizamos alguns êxitos, principalmente na quantidade de aroeirenses que
conseguem alcançar o terceiro grau, no empenho diligente de nossos colegas,
incessantes na tarefa de continuar a sua formação em cursos de pós-graduação após exaustivas jornadas de trabalho,
nos resultados mais satisfatórios do IDEB e das avaliações nacionais,
vergonhosos até 2009 e, a partir dali, mais adequados à competência e à
responsabilidade da classe docente de nossa região, cujo destaque nas
redondezas, e até em estados vizinhos, justifica a Aroeiras o título de “Terra
dos educadores”. Ou seja, em muitos aspectos, grande parte dos educadores dessas paragens tem, de certa forma, cumprido os ditames de algumas das 20 metas estabelecidas no PNE e, portanto, merecem ser laureados com todo carinho e reconhecimento necessários, haja vista sua ratificada responsabilidade...
Além dessas conquistas enobrecedoras
a todos os nossos queridos professores – os de hoje, fruto das sementes dos de
ontem – outras tantas podem ser aqui relembradas a título de exemplo:
Em 2009, a legislação previa o
pagamento de dois terços dos R$ 950,00 para uma jornada de 40 horas, ou seja,
prescrevia um salário de 633,00 reais ao docente de nível médio. Em Aroeiras, o
professor desse nível recebia como vencimento R$ 800,00.
Já em 2010, com a
obrigatoriedade do pagamento integral previsto na Lei, o próprio Governo
Federal reajustou o valor de R$ 950,00 para R$ 1.024,67, contabilizando um
acréscimo de 8%. Na tabela de reajuste anual do nosso município, o valor
repassado ao docente de 40 h foi de R$ 1.176,00 o que demonstra um percentual
de quase 15% em relação ao que determinava a lei.
Em 2011, o Gov. Federal somou
mais 15,8% ao salário mínimo do profissional do magistério, passando o valor
dessa remuneração para R$ 1.187. Em nossa cidade, o professor em jornada de 40
h passou a receber R$ 1.352,40, novamente mais de 14% acima do montante mínimo
exigido.
Em 2012, o reajuste foi mais
longe, o professor de nível médio, na forma da lei, não poderia receber menos
que R$ 1.451, um acréscimo de 22,5%. O
município de Aroeiras, por sua vez, reajustou o valor inicial para R$ 1.622,88
ficando, pois, aproximadamente 14% acima do valor mínimo exigido.
Isso não quer dizer que os
nossos gestores tenham sido “bonzinhos” ou que tenham sido "contagiados" pela síndrome da “generosidade descontroladamente adquirida". Penso que desconfiavam da diferença entre PISO e TETO e, talvez
porque olhassem para o seu próprio salário e visualizassem a injustiça
explícita de uma forma estonteante, optassem em ir um “pouquinho” além para não se
mancharem com o estigma de desvalorizar tal categoria.
Da mesma forma, talvez porque
muitos governantes levam ao pé da letra o codinome da Lei 11.738, conhecida popularmente como a "Lei do PISO", tenham assim, se
limitado a agir como se "PISASSEM" por sobre os professores, pautando suas ações numa
violência às vezes explícita, às vezes silenciosa, que tanto oprime como desmerece labor tão importante.
Esses episódios se proliferam nas
redes sociais e na imprensa de um modo geral, juntamente com a ojeriza da
sociedade, agora perplexa, e nada passiva diante de tamanho ultraje. A que
ponto estamos chegando?
Por fim, sou daquelas que acredito que nada disso poderá enfraquecer a
nossa luta diária, seja nas salas de aula ou nos programas enviados à toque de
caixa pelo MEC, lecionando dia e noite ou estudando noite e dia para melhor
lecionar... Nada disso poderá silenciar o poder construído com o suor do nosso
rosto e com o afinco de quem ama o que faz e, por isso o faz dando de si o seu
melhor !!!
Ousamos sonhar com a confiança no saber, com a
desconfiança nas falsas promessas, com a alegria da sala de aula, espaço do
mais autêntico intercâmbio, com os frutos das boas-novas vibrantes e salutares,
com a liberdade de uma consciência sã, aberta e por isso esperta, VIGILANTE!!!
Parabéns professores! Bravos
guerreiros! Caros colegas, grandes amigos!!!
Não desistam da educação e
acreditem no seu poder de criar mentes sadias, mais benignas, menos estáticas,
mais humanas, mais sujeitos, menos objetos!
Felicitações sinceras pelo nosso dia!!!
Professora Patrícia Germano
Dia 15.10.13
às 00h
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
Poesia do dia!!
Como as palavras falam
A segunda...
A terça...
A quinta...
A sexta...
Dias de trabalho...
Tão femininos...
O sábado.
Inversão final do ciclo.
Dia do ócio...
Dos saturnais folguedos,
Dos permitidos prazeres.
O domingo, dia do Senhor...
É o primeiro a se multiplicar em ordens
Abnegadamente obedecidas
pela próxima semana:
pela próxima semana:
Ela, Cinco x feminina...
O trabalho é masculino ?
O feriado? Certa estou que é.
Restam-nos “as férias”,
Alentadora promessa,
Consolo e sinal
De um erótico encontro
Entre A FOLGA E O DESCANSO!!!
Patrícia Germano
02.08.2013
Às 11h29
quarta-feira, 22 de maio de 2013
quarta-feira, 15 de maio de 2013
FRONTEIRAS, TRAVESSIAS E PASSAGENS... O ENTRE-LUGAR DO MARAVILHOSO EM “O SUMIÇO DA SANTA” DE JORGE AMADO
Patrícia Gomes Germano[1]
RESUMO:
“Lo maravilloso comienza a serlo de manera
inequívoca cuando surge de uma inesperada alteración dela realidade (el
milagro)[...]”. Assim alerta Carpentier (1989) quando conceitualiza o real
maravilhoso. Para o autor, no contexto literário, o maravilhoso acontece quando
uma alteração da realidade, entrevista pela obra, projeta-se numa “consciência
de fé”, numa adesão particular daqueles que experimentam esse “desestabilizar”
cosmogônico, não somente no aspecto literário, mas, sobretudo, em vivências
inusitadas experimentadas por determinado grupo. Logo, cabe à literatura
maravilhosa transformar-se numa espécie de “refratário” de experimentações
vivificadas e não contraditórias em dada vivência. É notório no universo
literário amadiano a constante presença de cosmogonias mítico-sacrais em
convivência, sejam as sacralidades afro-brasileiras, com especial relevo para
os rituais de matriz iorubá, seja a constante menção ao catolicismo e a seus
dogmas e, principalmente, a hibridação orquestrada entre os dois códigos
sacrais. Aqui o nosso olhar analisará a representação do maravilhoso, o
reencenar dos mitos e das travessias, a quebra de fronteiras entre a realidade
consolidada e o insólito sobrenatural alavancados na diegese de O sumiço da santa: uma história de
feitiçaria (1988), cuja novidade, ao que parece, é por em cena as ações
maravilhosas ocorridas num período quaresmal na cidade de Salvador, mescladas
ao reviver mítico queto-nagô. Tais sacralidades aparecem imbricadas e
compartilhadas entre personagens empenhados em naturalizar o insólito. Como
esteio teórico, faremos uso dos estudos de Carpentier (1989), Chiampi(1980) e
Reis (2005),Prandi (2005), Capone (2004) e Bastide (2000), os três últimos para
solidificar as incursões na mitologia de matriz afro-iorubá.
Palavras-chave: Jorge
Amado, Real Maravilhoso, Sacralidade, Literatura.
O real maravilhoso
transcultural no texto amadiano
Comumente
o trabalho de Amado é compreendido pela crítica como detentor de dois momentos
principais: o primeiro concentrado numa demarcação político-filosófica dos
ideais pertinentes ao Partido Comunista e a “propagandear”, através do discurso
literário, os fundamentos de um Estado-Nação bem enquadrado dos ditames
eletivos “apropriados” a essa estrutura; o segundo, que tem Gabriela: cravo e canela como marco
inicial, inaugura uma nova fase que deixa o tom panfletário, por vezes
proselitista e doutrinário das obras anteriores, com ênfase na divulgação dos
paradigmas marxista, para adotar uma expressão textual compromissada com um
“mínimo de literatura” para um “máximo de realidade” (AMADO, 2001a) [2].
Assim, o autor amplia seus mecanismos estéticos graças à liberdade discursiva enfatizada
quando o rigor do romance de tese é substituído por textos em que tanto a forma
como o conteúdo apontam para o trânsito entre a prosa documental, naturalista e
didática e os acordes do lirismo poético, do subjetivismo e do ressurgimento de
linhas temáticas antes relegadas ao esquecimento
A crítica
não entra em consenso quando a natureza dessa mudança. Alguns a veem como
radical, outros, como mera continuidade. Para Bosi (1970), são crônicas
“amaneiradas” e costumes provincianos dissolvidos no pitoresco, no apimentado
do regional. Para Albuquerque (1999), Jorge Amado continua preso às concepções
de etnicidade, revalorizando à raça, do ponto de vista cultural e psicológico,
na medida em que defende a mestiçagem como um ponto de partida para
personalidades sincréticas sem se ater ao nível psicológico das personagens.
Por
vieses díspares, estudiosos como Manzatto (1994) e Swarnakar (1998) entendem
que não há descontinuidades ou pieguice nesse segundo momento. Manzatto salienta
que “não existe ruptura entre as duas fases da literatura de Amado, entre o
narrador social da primeira fase e o escritor sorridente da segunda. Mesmo
porque, tanto em uma como em outra, o que transparece de sua literatura é o
engajamento pela liberdade” (p. 98) uma liberdade que nesse segundo momento
esforça-se por desconsiderar o dualismo clássico assumido nos textos anteriores
e passa a celebrar a riqueza do encontro, da hibridação, da lógica
carnavalizada assumida por personagens decididos a viver no entre-lugar, na
fronteira demonstrando, sobretudo, a fragilidade de toda ordem binária. Na
palavra de Swarnakar, a obra “does not appear to be a dividing line in his
career.” (p.171) e o Amado continua
apresentando o que ela chama “social consciousness”.
Para Da
Matta (1997, p.128),
Em termos literários, a originalidade desta fase de Jorge Amado é que,
ao sério, ele responde com o carnavalesco; ao normativo e ao partidário ele
contrapõe o pessoal, o singular e o milagroso; ao materialismo formalista e
retórico, ele ataca com a informalidade e com a religiosidade; a vida definida
como fórmula econômica, ele apresenta o mundo como uma complicada teia de
relações pessoais que sustenta a esperança nas boas amizades e se celebra a
relação pela relação.
Assim,
podemos nos aproximar do romance em estudo como um dos representantes máximo
dessa vertente amadiana em cujo cerne está balizada a noção dos vários
hibridismos a que estão sujeitos à dinâmica das relações sociais, principalmente
àquelas que tratam da demarcação entre o natural e o sobrenatural.
Nessa
perspectiva, O Sumiço da Santa: uma
história de feitiçaria protagoniza, num olhar primevo, ações que problematizam
as hibridações próprias das fronteiras, em suas amplas possibilidades
simbólicas, contexto que desnudam a precariedade da divisão, do sedentarismo e celebram
a riqueza das possibilidades. Para Pesavento (2001, p. 8),
[...] as fronteiras não são
apenas marcos divisórios construídos, que representam limites e que estabelecem
divisões. Elas também induzem a pensar na passagem, na comunicação, no diálogo
e no intercâmbio. Figurando um trânsito não apenas de lugar, mas também de
situação ou época, esta dimensão da fronteira aponta para a instigante reflexão
de que, pelo contato e permeabilidade, a fronteira possibilita o surgimento de
algo novo, híbrido, diferente, mestiço, de um terceiro que se insinua nesta
situação de passagem.
Nessa
perspectiva, as ações cambiantes de O
Sumiço da Santa criam uma ideia do novo como ato insurgente de “tradução
cultural” e articulam a criatividade inerente à fronteira, não mais geografia
de separação, mas território da imprevisibilidade criativa que desorganiza
velhas ordens num processo de contínuo devir.
Breve
notícia da obra
A história inicia-se
com o embarque e desembarque da imagem de Santa Bárbara, vinda da cidade de
Santo Amaro da Purificação a fim de abrilhantar uma exposição de arte sacra
promovida pelo clero de Salvador, na pessoa de Dom Maximiniano Von Grudem. Tal
imagem constitui-se uma raridade justamente por fugir à regra das estátuas
comuns e não possuir os símbolos e elementos tipicamente atribuídos à Santa
Bárbara: o cálice, a palma e a torre. Do contrário, traz “às mãos um feixe de
raios”, é “famosa pela beleza secular e por milagreira” (p.4). Em companhia à
peça de arte sacra, viajam Pe. Abelardo Galvão, humilde vigário da cidade de
Piaçava, personagem importante no desenrolar das ações e irmã Eunice, freira da
Clausura das Arrependidas.
Quando a imagem chega
ao cais do porto, desce da embarcação, transmuta-se numa belíssima negra, atira
de lado o manto e desaparece na Rampa do Mercado, “andando para os lados do
elevador Lacerda” e, “antes que as luzes se acendessem nos postes, Yansã sumiu
no meio do povo” (p. 11), visitando um terreiro, solucionando problemas, enfim
anunciando o real motivo de sua vinda à Bahia: “trazia um propósito e uma
decisão: libertar Manela do cativeiro e mostrar a Adalgisa com quantos paus se
faz uma cangalha” (p.29-30).
Importante atentar que,
no enredo, não existe referência precisa das datas do acontecimento, apenas os
dias são citados, mas, por uma analogia à Sexta-feira da Paixão – data
importante do calendário cristã – realizada no décimo sexto capítulo A longa jornada da sexta-feira das paixões
(p. 311) e pela associação do sofrimento de Dom Maximiniano à Via crucis,
presume-se que as ações acontecem entre a quarta-feira e a sexta-feira da
quaresma.
A par dessa informação,
vale observar que no ritual litúrgico dos terreiros iorubás, durante a
quaresma, inexiste qualquer tipo de atividade, fato que conduz a narrativa a um
caráter transgressor, porque os seres divinos da mitologia nagô realizam
proezas durante a chamada “Semana Santa” dos católicos.
Por essa altura,
aparecem na expressão diegética um núcleo de personagens envolvidos na montagem
da Exposição de Arte Religiosa. À frente deste badalado evento, Dom Maximiniano
von Gruden, “museólogo ilustre”, “conceituado historiador de arte” (p.15), defensor de tese sobre a dita imagem de Santa
Bárbara e atribuir, como seu legítimo autor, o Mestre Aleijadinho.
Na expectativa da
chegada de tão rara peça, Dom Maximiniano atende a repórteres e enviados
especiais de Portugal com relevância ao poeta e jornalista Fernando de Assis
Pacheco incumbido de “cobrir”, jornalisticamente, o evento.
Nova
quebra de linearidade apresenta-se na narrativa. Dessa vez, em continuidade ao
momento inicial, o capítulo A Taca de
couro (p. 37) recorre a um movimento temporal retrospectivo destinado a
relatar eventos anteriores ao presente da ação e, nesse caso, precedentes ao
tempo do seu início. Nele são apresentados Manela, órfão de pai e mãe, criada
pela tia Adalgisa Perez y Perez e por Danilo, ex-jogador de futebol, esposo
dedicado aos caprichos da jovem senhora apelidada de Dadá.
Os capítulos Noivado e casamento (p.107) e A(s) noite(s) de núpcias (p.175) ainda
fazem uso de analepses para apresentar as atitudes de Adalgisa durante o
noivado e no decorrer das bodas. Em ambos, o tom humorístico se sobressai,
desarticulando a seriedade e caricaturizando o comportamento pequeno-burguês
comum na época em que o texto é ambientado.
Na composição textual,
Adalgisa é descrita como uma chapeleira com ares de grã-fina, criada pela
madrinha, Dona Esperanza, para ser uma senhora de respeito e distinção. Dona de
um corpo invejável, de uma sexualidade reprimida por tabus e códigos de honra,
não consegue ter filhos e nem satisfazer sexualmente o esposo Danilo. Mesmo
assim, esmera-se no cuidado da casa e na educação da enteada Manela.
Empenhada em criar a
sobrinha com pulso firme, “Adalgisa pusera-lhe cabresto, ditara rígidos
horários, não lhe permitia trocar pernas pelas ruas”, “terreiros de santos, nem
falar: Adalgisa tinha horror a candomblé. Horror sagrado” (p.50). De todas as proibições,
o namoro com o jovem taxista Miro, mulato, pobretão, chegado a festas de
macumbas, consistia no delito máximo e a pena, uma surra com uma “taca de
couro” presente do padre confessor: Antônio Hernandez.
Decidida a fugir de
casa com o namorado Miro, Manela não concretiza seus planos porque a tia
descobre o intento e, com a ajuda do padre-confessor, consegue interná-la na
clausura das “Arrependidas”.
Romance narrado em
blocos onde a técnica do fragmento é amplamente usada, Jorge Amado justapõe
ações que se unem através de um eixo comum: o envolvimento com a
imagem/orixá/santa católica.
Posterior a essa
digressão, o narrador realiza outra incursão na vida de Dom. Maximiniano von
Gruden a fim de dar continuidade ao sofrimento vivido pela personagem, graças
ao sumiço de tão valiosa imagem. É nesse núcleo diegético que duras críticas ao
roubo de obras de arte são conferidas, bem como é construída uma caricatura dos
dirigentes clericais, favorecidos por políticos corruptos, sempre alheios ao
bem do povo.
No capítulo A Via Crucis (p.79), essa tensão é narrada ao passo que novos personagens surgem na
composição: o Bispo Dom Rudolph, o coronel e delegado de polícia Raúl. O
capítulo é entrecortado por outros dois de natureza digressiva: um que relata
os acontecimentos do noivado de Adalgisa e Danilo e outro destinado aos
passeios de Iansã entre ateliês famosos e humildes tendas de artesãos.
A continuidade às
agruras de Dom Maximiniano é retomada no capítulo Os telefonemas (p.125) instante em que reaparece Pe. Abelardo
Galvão visto, pelas autoridades eclesiais, como principal suspeito do roubo da
imagem desaparecida.
Desse ponto, as ações
voltam-se para caraterizar Pe. Galvão e Patrícia, jovem moça de audaciosos
ideais, empenhada, juntamente com o vigário, na luta em favor dos moradores
sem-terra da localidade de Piaçava e na denúncia dos crimes cometidos pelos
latifundiários da região. Além de militante, é filha de Iansã a quem realiza um ebó[1] com
objetivo de conquistar o padre. Atriz, viera a Salvador para abrilhantar
documentário francês, gravado na cidade, com abordagem sobre os costumes e
singularidades locais.
Com esse núcleo, Jorge Amado pondera a
concepção negativa do clero, trabalhada no núcleo dos dirigentes, e apresenta
um padre solidário, participativo, engajado na luta em defesa dos “oprimidos”,
simpatizante das teorias religiosas latino-americanas da segunda metade do
século XX.
Interligados aos dois personagens, um grupo de
socialytes, mulheres de políticos
influentes, de juízes e fazendeiros, dignas senhoras na aparência, mas de
essência libertina e dissimulada. Dentre elas, Diana D`Ávila, esposa do juiz de
menores, flagrada numa cama de motel ao lado de seminarista Elói.
Após essa longa
caracterização das personagens, o narrador relata as ações ocorridas durante os
dias de quinta e sexta-feira, lembrando que toda narrativa se formula em torno
da chegada de Santa Bárbara/Iansã a cidade, na quarta-feira.
A princípio, o narrador
descreve as peripécias de Adalgisa até conseguir autorização para enclausurar
Manela no Convento das Arrependidas, a raiva que essa atitude causou em seu
marido Danilo e o batalha travada por familiares e vizinhos na tentativa de
livrar a pobre moça da madrasta insensível. Pela intervenção de Santa Bárbara,
que é reconhecida por irmã Eunice, a jovem reclusa finalmente sai da clausura
e, em frente ao convento, Manela torna-se cavalo de Iansã, recebe o eiru e suspende o namorado Miro como ogã
de Oyá.
Revoltada com a notícia
de que a sobrinha fugira do castigo, que recebera santo de macumba e que se
encontrava reclusa num terreiro, Adalgisa, junto ao Pe. Antônio Hernandez,
procura conseguir nova autorização do juizado para retirá-la do Axé[2].
Durante o trajeto, encontra-se com uma negra e um pau-de-arara. Misteriosamente
é possuída por Iansã auxiliada por Exu, Ogum e Oxóssi.
Ainda no capítulo
final, o autor esclarece o ocorrido com Pe. Abelardo Galvão e com Patrícia. Ele
se livra do assassinato por encomenda, graças à intervenção de Exu fantasiado
de pau-de-arara e ela consegue enfim o amor do padre, em vista de um ebó destinado à Iansã.
Já se encaminhando para
o desenlace, após cumprir todos os seus compromissos mais urgentes, Santa
Bárbara/Iansã aparece no Museu de
Arte a tempo de salvar Dom Maximiniano do fracasso que lhe aguardava, coroando
com louros e honrarias a tão divulgada exposição.
Interessante notar que,
nesse aspecto, a narrativa apresenta-se como um ciclo, já que se inicia com a
transformação da imagem de Santa Bárbara em mulata e em orixá para, no fim das
quarenta e oito horas, voltar a ser imagem, ícone do catolicismo.
[1]
Oferenda ou sacrifício animal, de sangue: mengua,
a um orixá. Cf. Guilhermino (2004).
[2]
Palavra de múltiplos significados, entre eles, força vital, princípio da vida.
Dá-se o nome de Axé também ao terreiro e
espaço sagrado onde se realizam o culto aos orixás, por entender que nele se
concentram as energias das divindades.
No Brasil, foi associada à saudação que, ao mesmo tempo, é invocativa do
divino. Cf. Pessoa de Castro (2001), Cf . Prandi (2005).
REFERÊNCIAS:
AMADO, Jorge. O
sumiço da santa: uma história de feitiçaria. 3 ed. Rio de Janeiro: Record,
1999.
AUGRAS,
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de Ph. D. não
publicada.
[1]
Doutoranda PPGLI – UEPB – CAPES/CNPQ, com pesquisa na área de tradução
intersemiótica dos textos amadianos, é professora da Rede Pública Estadual da
Paraíba, Mestre e Especialista pela UEPB.
[2] Frase de abertura do romance Cacau (1933) exaustivamente usada pela crítica para condenar a “pouca”
expressividade estética do autor.
[3]
Neste estudo, não se entra em detalhes sobre a proliferação de termos que
tentam dar conta da inclusão de aspectos míticos nas artes em geral. Dessa forma,
elenca-se aqui apenas o conceito de realismo maravilhoso na perspectiva de
Alejo Carpentier estudado por Chiampi (1980), por entender que ele melhor
responde as propostas narrativas expressas no romance em análise.
[4] Ao iniciar o romance com a imagem de uma
travessia e de um desembarque, Jorge Amado retoma um argumento já desenvolvido
em outras obras, como por exemplo, O
país do carnaval (1931) e Terras do
sem fim (1943). O uso de embarcações e a metáfora da viagem ainda estão
presentes em grande parte de seus textos, como Gabriela, cravo e canela (1958), Tieta do Agreste (1967), A
morte e a morte de Quincas Berro d’água, (2001).
[5] O
termo Ebômin ou Ebome designa a filha-de-santo com sete anos de iniciação e que
tenha se submetido às obrigações rituais de costume. É uma espécie de
conselheira dos recém-iniciados. Cf. Pessoa de Castro (2001).
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